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Helena, lembrasse da angústia que sentia nossos corações em flor?
De quando passeando com a primavera sentimos o perfume do amor
E não tivemos medo de segredar-nos nossas vontades umedecidas?
… Hoje passando pelo caminho que juntos fomos um desabrochar
Eu vi na aurora um lapso de tristeza porque à minha sombra era só
Como uma treva vazia e compreendida em solidão…
Foi triste, Helena, ver a vida ser ausência
Por não estares no caminho ao lado meu.
Foi terrivelmente doloroso compreender na beleza das flores
Um ar lúgubre por um perfume de morte.
Meu corpo estremeceu como um corte em cruz
E toda fé esvaiu pelo meu peito;
– A fé em luz que espelhava na pétala em flor era branca como os lírios…
E apesar de tudo, eu senti aquele peso de paz sobre meu cadáver vivo
Porque foste uma lembrança ainda viva e incicatrizável nessa primavera de luto
Onde rosas negras adornam perto a margem do rio sua pegada sobre a terra
E meus joelhos ajoelhados a teus pés como quem pede perdão ao esvairsse devagar
Por amor a alguém que só existiu em mim
Mas que nunca existiu…

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Na cidade de Jerusalém, um jovem caminhava por entre o comércio santificado de artesanatos religiosos, sempre que encontrava alguém, perguntava:
– Onde posso encontrar Deus?
Todos olhavam com espanto e desdém, achando insâno os sândalos da fé que emanavam da profundidade das palavras;
… – Não sei jovem! – Eram a retórica dos nobres vendedores.
Mas, Khaliu Haddad não desistia, e por entre sua busca, na areia de ouro do deserto encontrou um nômade solitário e taciturno conversando com seu camelo;
– Onde posso encontrar Deus? – Perguntou Khaliu ao velho homem.
– Vá até aquele oasis, mire atentamente o reflexo na escassa água e você o encontrará!
Khaliu sem exitar caminhou até o pequeno sinal d’àgua, observou o vento ondulando a pequenina península, viu o reflexo do sol, as nuvens caminhando devagar, as folhas verdes tiritando, e seu reflexo junto a todos esses sinais de vida;
– É isso… – Pensou.
Voltando a cidade, um dos nobres vendedores, gritou por entre sua tenda;
– já encontrou Deus, jovem? Se encontrá-lo, diga que também o procuro.
Khaliu olhou para o céu, e com a voz presa de sal o respondeu;
– Deus é o reflexo de tudo no fundo dos seus olhos…
E então partiu de volta para onde seu destino o esperava.

Memória

Quando ouço ausência, ouço a voz da solidão que preenche em si toda a ampla formação das arquiteturas enrustidas do tempo; Passos leves, pegadas de topázio em busca de rios de preciosas águas silenciosas; Ouço sem hesitar o longo crepúsculo derramando em pranto estrelas no céu noturno dos amantes solitários que apenas sonham com o amor, sem tocá-lo ou ousá-lo; E é assim, por ouví-la, que me estremece a saudade que não tem fim de um tempo que foi finito, mas necessário p’ra se moldar nas histórias permanentes…

Quem és?

Sonhando o sangue percorre o corpo da saudade,
O silêncio caminha ao olhar que escorre a face;
– Há uma pintura de amor na água
E estavas ali exânime na vida oculta;

No som do som dos caminhos de beijos longos,
Quão alto fomos por entre não ir!
No carvão o cinza do coração ao chão
Cinturão de flecha atravessando a existência!

Há sentidos nas estrelas que desvendamos
Em noite tardia que nos amamos com o vento selvagem
Trazendo o beijo de perfume dos sinais da chuva;
– Nunca fomos alheios à vida!

Esteve onde não estava ninguém,
Assinando tuas unhas que mordiam-me ferozes,
Saltando fogo, queimando para não olvidar;
– Foi tua forma de ser infinita.

Recordava-me antes de recordar-te
Para sentir que em mim ardias como chama,
Como ferro a carne que molda o destino
Pertencente a quem marcou e permaneceu.

Recordava-me ancorado no silêncio
Para não ferir tua voz;
– Tocá-la como queria o tempo vivido.

Recordava-me para lembrar-te
E chamar teu nome nas marcas do que fomos…

Os perdidos

Perdemos a hora dos beijos despedidos,
Ateamos amor nos medos ferozes
E em duas estradas seguimos opostos
Quando não nos viam o mundo dos outros.

Amei a janela da frágil montanha triste;
Às vezes vinha o sol tocar meus dedos
Para te iluminar a luz com afago.

Lembrei-te insegura e perdida
Viúva do amor vivo
Somente com alma a tocá-la

Então, estarás longe?
A que distância não enxergamos?
Como dizer o que sentíamos?
Por que há de ser assim tudo que queríamos
Se distante meu coração estava ao teu lado?

Caía nos lábios o ar que beijava a vida
Como ondas invisíveis de um cais abandonado

Porque sempre partias nas manhãs dos dias
Silenciosa, apagando meus olhos.

O caminho

Parto, entre as lentas florestas da infância
Levando o coração secreto da aurora;
Descingindo finitas bússolas perdidas
Onde cardeal esquecido não toca o tempo.

Parto, como castelo de nuvem que varre o vento
Saqueando de um girassol taciturno
Gotas de orvalho que abrigam da manhã triste
O idioma das águas silenciosas.

Parto, sem saber que rota cruza na alma
Os caminhos das memórias que esqueço no silêncio
Por não trazer aos olhos cascatas de sentimento
Mas todo um arquipélago em naufrágio.

Parto, como doença triste de limbo em repouso
Erguendo pedras como cristais trincados do desalento

Parto, partindo longas promessas de sonhos frágeis
Como a mais pura palavra de uma paixão adormecida…

Rosa Mística

Três rosas de branco, amarelo e vermelho
Adornam o coração da chuva
Que é como igreja nas mãos dos peregrinos.

Há caminhos muitos há que plantar esperança
Que é como a voz dos relâmpagos da crucificação.

Aos homens indecisos que pecam por chorar
Nascerão sempre espinho há serem cravados na terra
E esquecido em seguida por podá-los a primavera.

Não saberemos nunca, inocentes de vento em folhas
Os ruídos da capela interna que se conduz oculta.

Egrégio momento a vir; Chagas vermelhas cicatrizadas
Por quando amarmos as rosas que são cegas sem mãos
E as levarmos ao cântaro da vida de todos os dias
Porque estão na morte, felicidade, amor, saudade…

Caíram como estrelas de um carrossel vazio
E galgaram brancas, amarelas, vermelhas
No manto celeste do crepúsculo da Mística
E nos trouxe, nos trouxe o que saberemos;

Há que semeá-las bem nas veias do destino
Para que desabrochem no infinito, que é luz
Por entre os jardins da vida digna…